Parece difícil de acreditar mas, verdade seja dita, há mais dinâmica cultural no Porto do que em Hong Kong.
Não, não me refiro (só) à noite. E nem todos as "artes" são igualmente mal tratadas. No que toca ao cinema, por exemplo, as coisas melhoram bastante em relação à Invicta (também não é muito difícil...): há dezenas de salas espalhadas pela ilha. O número deve chegar à centena se considerarmos toda a região. Mas, ainda assim, posso-me queixar da fraca diversidade. Apesar de haver cinco ou seis empresas de distribuição diferentes, os filmes escolhidos são sempre os mesmos, qualquer que seja o cinema (até na "Cinematheque" privada).
Há aqui um hábito particularmente estranho, o de quase nunca comer em casa. O get together com os amigos faz-se à hora do jantar, num restaurante da moda, normalmente absurdamente caro. Os restaurantes são os bares e os cafés cá do sítio. Explica-se assim a extraordinária grossura do Guia Michelin de Hong Kong, quase o dobro da edição de Portugal.
Se isso me impede de tentar imiscuir-me nos hábitos dos locais (não posso pagar 20€ por um jantar todos os dias), é óptimo no que toca a arranjar clientes para os vinhos. Seria ainda melhor se donos e clientes percebessem que em vez de andarem a beber aquela porcaria engarrafada que vem Chile ou da Austrália a preços exorbitantes, podiam facilmente provar vinhos excelentes do velho mundo a metade do preço que pagam pelos outros, então sim, seria o paraíso.
Vêm aí eventos culturais de grande envergadura como o HK Arts Festival e o HK International Film Festival (durante este e o próximo mês); nesse aspecto é como se tivéssemos aqui o equivalente a 20 Casas da Música e Serralves. Mas a dinâmica não se esgota (nem sequer se completa) nesse cenário "mega". Não há esplanadas, não há bares com música ao vivo, não há cafés com exposições, não há tertúlias nas livrarias, não há noites temáticas nas discotecas (o único "tema" é o mais puro comercial), não há, digo, - arriscando-me a soar muito, muito lame - aquela joie de vivre que se sente nas ruas portuguesas.
Na noite, por exemplo, é asfixiante ter de ouvir duas, três, quatro vezes as mesmas músicas, tudo êxitos MTV do Verão passado. Já para não falar das pessoas. Os chineses, na noite, dividem-se em dois grupos: os autistas e os esquizofrénicos. Os autistas estão normalmente encostados a um canto, imóveis, a fixar o infinito enquanto, ao lado deles, uma aparelhagem bombardeia com milhares de decibéis os seus cérebros paralisados.
Os esquizofrénicos estão quase sempre em transe: "dançam" como se cada músculo estivesse a receber uma descarga eléctrica de alta voltagem, fazem gestos e mandam sinais a toda a gente, esperneiam e, vou-me apercebendo, costumam ir sair sozinhos (e ir para casa sozinhos, cof cof). Elas e eles parecem protagonistas de um qualquer videoclip ranhoso em modo fast forward.
No meio desta fauna complicada estão os ocidentais. Nota-se a milhas, mesmo no escuro e por entre as pessoas, os grupos de westerners a dançar nas calmas, sem show off, entre amigos, a rir e a conversar. E nas discos em que estão em maioria a música é, de longe, bem melhor e as bebidas mais baratas. What's wrong with you people!??
É verdade, o Guia Michelin HK é o dobro da versão PT. Mas a Time Out HK é um panfleto comparada com a Time Out Porto. Na minha modesta opinião, falta a esta gente mais "tempo livre". Ah, e "pneus" mais baratos, já agora.